A alegria como tema fundamental da espiritualidade franciscana

Ir. Daniel Silbernagel

Vivemos em tempos de muita dor, muito sofrimento, de muitas perdas, muitas angústias diante do presente e do futuro próximo, seja por conta da pandemia do covid-19, seja pela crise econômica, crise racial, crise na saúde, crise na segurança e outros setores de nossa sociedade também mergulhada em uma crise moral.

Nesse contexto, cabe a cada um de nós, refletir sobre a alegria como tema fundamental da espiritualidade franciscana, enraizada na alegria cristã. Apesar de todas as contrariedades do tempo presente, temos que repetir como São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos” (Fl 4,4). O Papa Francisco também nos encoraja a vivermos na alegria, em sua Encíclica sobre a santidade. Não se trata de uma alegria ingênua, que foge das contrariedades, mas firmemente ancorada na Pessoa do Verbo Encarnado. “O Evangelho, em que resplandece a gloriosa cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria” (GE, 5).

A espiritualidade franciscana é marcada por intensa alegria.

Não se trata de uma alegria infantilizada, ingênua ou contaminada pela lógica do consumismo. É uma alegria que caracteriza a própria personalidade de Francisco, mas que, a partir da sua conversão, ele cultivou no seguimento de Jesus Cristo, na acolhida dos dons do Espírito Santo, na prática de uma vida segundo o Evangelho.

A Legenda dos Três Companheiros nos brinda com um retrato muito luminoso do jovem e adulto Francisco. “Depois que se tornou adulto e perspicaz de inteligência, exerceu o ofício do pai, isto é, o comércio, mas de maneira muito diferente, pois era mais alegre e liberal do que ele, aficionado aos divertimentos e aos cânticos percorrendo a cidade de Assis de dia e de noite em companhia dos que eram iguais a ele, muito pródigo em gastar, a ponto de dissipar, em banquetes e outras coisas, tudo o que podia ter. (…) No entanto, era naturalmente cortês nos costumes e nas palavras, não dizendo a ninguém, de acordo com o propósito de seu coração, palavra injuriosa ou obscena, pelo contrário, como era jovem brincalhão e alegre, propôs jamais responder aos que lhe dissessem coisas vergonhosas.” (LTC 2-3)

Foto por hitesh choudhary em Pexels.com

Diante dessas informações podemos concluir que Francisco era dotado de uma personalidade, desde sua juventude, com traços de cortesia, generosidade, alegria, prodigalidade, comunicação de brincalhão, com certa excentricidade e que gostava de cânticos, festas, amigos. A alegria em Francisco de Assis e na sua espiritualidade tem raízes no seu temperamento, na sua personalidade, no seu processo formativo. Não foi unicamente fruto da intervenção Divina e do árduo itinerário de conversão. Vale lembrar que a graça supõe a natureza e age a partir da própria natureza e liberdade de cada pessoa.

De maneira simples, convido aos irmãos e irmãs, a meditarmos um pouco, sobre alguns pontos sobre o tema da alegria, como parte fundamental de nossa espiritualidade, como nos encorajada o Francisco de Roma e o Francisco de Assis, sendo uma Igreja em saída, do jeito dos dois “Franciscos”, cada qual em seu tempo histórico, mais que nos encorajam, a nunca perdermos a alegria, mesmo que estejamos cercados de luzes ou sombras.

Foto por Matheus Bertelli em Pexels.com

Posteriormente, meditaremos sobre a alegria como fruto de conversão, a alegria franciscana na pobreza e com os pobres, a alegria franciscana em Jesus Cristo e por fim, a alegria na Fraternidade. Por isso, sejamos irmãos e irmãs da alegria e da esperança: “Mensageiros da perfeita alegria, procurem, em qualquer circunstância, levar aos outros a alegria e a esperança” (Regra da OFS n.19).


Continua…


Ir. Daniel Silbernagel
Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos

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