Silêncio e encontro com Deus


Entra no teu quarto

“Entra no teu quarto.” O estar em si. Silêncio e encontro com Deus (experiência de clausura – convento – confinamento – famílias hoje – discernimento do que é indispensável na vida – convicções pessoais).

O que é entrar no quarto, sob a ótica da espiritualidade franciscana?

Entrar no quarto é buscar, no isolamento das coisas do mundo, a presença e amizade de Deus. É reconectar-se com o Divino.  É voltar ao útero da criação, a origem.

O quarto é um reencontro com a Criação. É ter consciência de fazer parte do Cântico das Criaturas. É recolhimento, exaltação e louvor.

Não uma dependência de um prédio, ou, lugar onde ser recolhe para se abrigar do frio, buscando a proteção das ameaças do mundo.

Entrar no quarto é voltar ao ponto de partida para dele não se esquecer, como diria Clara.

Entrar no quarto é o primeiro grande passo, ou melhor, um grande salto para uma caminhada penitente, ora solitária, ora em companhia de outros, numa estrada pavimentada ora por bom asfalto, ora por pedregulhos, vivenciando as quatro estações da alma e com uma única certeza, que brota da fé: NÃO ESTAMOS SOZINHOS.

E qual é a finalidade e o propósito de entrar no quarto? É ter em Deus um confidente que irá ouvir nossas autoindulgentes lamúrias numa tentativa de transferir as responsabilidades de nossas faltas? Buscar a impunidade de nossas transgressões, embaladas em chorosos argumentos e murmúrios?

Claro que não.

Entrar no quarto é buscar a fonte da Vida; é estar em Deus, no silêncio profundo; é Buscar sua amizade, e nela permanecer num estado contínuo de gratidão e alegria, incomensuráveis.

E como se tem esta certeza do encontro ou melhor reencontro? É sentir-se inundado por uma sensação inesgotável de PAZ E BEM que transborda a nossa pequena célula, invade todas as nossas estruturas e transborda de nossas existências, deixando um rastro de agradável perfume para ser seguido.

E encontrando Deus, no silêncio do quarto, nada fica como era antes, e nem pode ficar. Tudo muda. Somos transfigurados. Nos transformamos no ESPELHO DA PERFEIÇÃO: refletimos a perfeição da caridade, da compaixão, da santa humildade, da obediência e de todas as outras virtudes, que decorrem do Santo Espírito.

Muitos, humanos como nós, cheios de perfeições e imperfeições, vícios e virtudes, dúvidas e certezas já entraram no quarto, na caverna, na gruta, e fizeram este caminho de santidade.

Mateus, capítulo 6 versículo 6, antes de ensinar a oração do PAI NOSSO, prega: “Tu, porém quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. E o teu pai , que vê no escondido, te dará  a recompensa..

Santa Clara, cuja memória hoje estamos reverenciando, recolhida em oração, ou seja, no quarto, diante  do  Crucificado ouviu uma voz que lhe disse com mansidão e generosidade:  ‘Não temas, mulher, porque, salva, vais dar ao mundo uma luz que vai deixar a própria luz mais clara’.

E deste dia em diante passou a ser chamar CLARA, a nossa intercessora.

FRANCISCO, entrou no “quarto” de São Damião e ouviu o Crucifixo que ali estava exposto, numa igreja abandonada e sob escombros, esquecida numa antiga estrada: “Francisco, vai e repara minha casa que está em ruína”.

Celebremos hoje com alegria este dia porque conversão é mais que um substantivo feminino impresso num livro esquecido numa prateleira da Biblioteca Constantino Koser, que fica lá no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis.

Conversão é uma realidade e consciência concreta, alcançável e possível.

Santa Clara rogai por nós!

Texto utilizado no Tríduo de Santa Clara (08/08)

08/08/2020.

Irmão Sergio Baravelli
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