Meditação bíblica

Tempo pascal – Ano A

2º Domingo depois da Páscoa, 19 de abril de 2020


Oração: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, e o sangue que nos redimiu”.


  1. Primeira leitura: At 2,42-47

Todos os que abraçavam a fé viviam unidos

e colocavam tudo em comum.

Lucas dá uma imagem idealizada da comunidade cristã de Jerusalém (At 2,42-47), imagem que se completa em At 4,32-36 e 5,12-16. Lucas apresenta esta imagem como uma resposta viva à pregação de Pedro após a vinda do Espírito Santo (At 2,1-41). A primeira comunidade surge sob o impacto do Espírito Santo, derramado pelo Ressuscitado. O segredo do crescimento e do fervor desta comunidade está resumido no v. 42: “Eles frequentavam com perseverança a doutrina dos apóstolos, as reuniões em comum, o partir do pão e as orações”.

Os elementos constitutivos da comunidade são: o anúncio da Palavra que propõe e salvação, e tem como resposta o serviço (diaconia), a comunhão (partilha, koinonia) e o louvor de Deus. A partilha de bens na comunidade é um reflexo da ordem de Jesus na última ceia: “Fazei isto em memória de mim”. Celebrar a Eucaristia não é apenas fazer a memória da última ceia, da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É também fazer a memória da vida de Jesus, marcada pela divisão do pão (duas “multiplicações”); é a memória do Cristo ressuscitado que se deu a conhecer aos discípulos de Emaús ao partilhar com eles a palavra e o pão.


Salmo responsorial: Sl 117

            Dai graças ao Senhor, porque ele é bom;

            eterna é a sua misericórdia.


  1. Segunda leitura: 1Pd 1,3-9

Pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,

Ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva.

Esta carta quer confortar os cristãos de origem pagã da segunda geração, ameaçados pela perseguição. O texto começa com um hino batismal, no qual se louva a Deus Pai pela obra da salvação. A misericórdia de Deus se manifesta pela fé em Cristo Ressuscitado. Pelo batismo Cristo nos faz nascer de novo para “uma esperança viva” na salvação que está reservada no céu para nós, e se manifestará quando Ele vier em sua glória nos “últimos tempos”.

A fé e a esperança se tornam vivas e verdadeiras quando passam pelo fogo das provações e nos preparam para participar na manifestação gloriosa de Jesus Cristo. Com tais palavras a carta visa confirmar a fé e o amor dos cristãos que, como nós, não conheceram Jesus de Nazaré: “Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais”. Para os cristãos da Carta de Pedro, e a nós também, dirigem-se as palavras que Jesus diz a Tomé incrédulo: “Acreditaste, porque me viste? Felizes os creram sem terem visto” (Evangelho).


Aclamação ao Evangelho

            Aleluia, Aleluia, Aleluia.

            Acreditaste, Tomé, porque me viste.

            Felizes os que creram sem ter visto!


  1. Evangelho: Jo 20,19-31

Oito dias depois, Jesus entrou.

Os evangelhos lidos nos domingos após a Páscoa apresentam as narrativas das aparições de Jesus ressuscitado. No evangelho de hoje João nos conta duas aparições: uma na tarde do primeiro dia da semana e outra, oito dias depois. Na primeira, Jesus se manifesta aos “discípulos” reunidos no cenáculo. Acontece depois da visita de Maria Madalena ao túmulo, da corrida de Pedro e João ao túmulo vazio e da aparição de Jesus a Maria Madalena. No final da primeira aparição é conferido o dom do Espírito (v. 21-23). Os discípulos recebem o Espírito em vista da missão: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (v. 21).

Tomé, que não estava presente na primeira “reunião”, não acreditou no testemunho dos apóstolos (v. 24-25). A segunda aparição aos onze apóstolos acontece uma semana depois, e Tomé estava entre eles. O incrédulo Tomé é repreendido: “Põe aqui o dedo e olha minhas mãos, estende a mão e põe no meu lado, e não sejas incrédulo, mas homem de fé”. Tomé devia tocar o lado traspassado de Jesus, deixar-se tocar pelo amor total daquele que deu sua vida por nós. A incredulidade de Tomé traz uma repreensão, válida para todos nós: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram”.

O evangelho está relacionado com a 1ª leitura pelo tema da “reunião”. É na assembleia reunida no Dia do Senhor é que vivemos, celebramos e cultivamos nossa fé comum no Cristo Ressuscitado. Está também relacionado com a 2ª leitura: “Sem o terdes visto, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa” (1Pd 1,8). – A fé em Cristo ressuscitado se reaviva quando nos reunimos no Domingo a fim de participar na oração em comum, e nos alimentamos da mesa da Palavra e da mesa da Eucaristia.

Frei Ludovico Garmus, Ofm
Biblista e escritor

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