Meditação bíblica

Ele não está aqui! Ressuscitou!

Lucas 24, 6

Tríduo Pascal

A Grande Vigília

Sábado Santo, 11 de abril de 2020

A Vigília pascal constitui o âmago de todo o Ano Litúrgico. É considerada a mãe de todas as Vigílias. Aliás, toda a Ação pastoral da Quaresma deveria ter como meta a participação na Vigília pascal. Não basta dizê-lo aos fiéis. Será preciso os pastores irem mostrando sua imensa riqueza.

Nesta noite santa a Igreja não celebra apenas a Páscoa de Jesus Cristo. Celebra também a páscoa dos cristãos, seus membros.

A festa pascal é festa batismal. A Igreja dá à luz novos filhos pela fé e pelo Batismo e, após a penitência quaresmal, renova a própria Aliança batismal, para participar mais intensamente da Ceia pascal do Cordeiro imolado e glorioso. Entre nós, a páscoa é enriquecida pela Campanha da Fraternidade. Por ela se realizou uma experiência pascal da Comunidade eclesial.

Fundamentalmente se trata da celebração da vida renovada em Cristo ressuscitado. Tudo fala de vida e de felicidade. As diversas etapas da Vigília fazem com que a vida divina penetre a Comunidade celebrante.

A abertura é feita pela celebração da luz, que brota da pedra virgem, simbolizando Jesus Cristo, Luz do mundo. Ela vai dissipando as trevas para iluminar a todos os presentes. Eleva-se, então, o grande louvor à luz no canto do Exsúltet, Exulte o céu.

A Liturgia da Palavra torna presente a Palavra criadora de Deus na criação, na formação de um povo, no Cristo ressuscitado, na Igreja hoje, renovando a Aliança de Deus com a humanidade.

Segue-se a Liturgia sacramental. Nesta noite ela abrange os três sacramentos da Iniciação cristã: Batismo, Crisma e Eucaristia.

Cada sacramento é significado por um símbolo de vida, animado pela ação do Espírito Santo. A ação de graças sobre a água batismal comemora a ação criadora e libertadora de Deus através da história da Salvação, evocada na celebração da Palavra. O óleo do crisma, consagrado na Missa da manhã de Quinta-feira da Semana Santa, é usado no sacramento da Confirmação, simbolizando a presença e a ação do Espírito Santo na nova criação, inaugurada na vida da Igreja.

E o ponto alto da celebração é a Eucaristia, ação de graças por excelência, celebração da nova Páscoa de Cristo participada pela Igreja. A vida que nasce no Batismo e é animada pelo Espírito alimenta-se na mesa do Cordeiro pascal. Os cristãos dão testemunho da Morte e Ressurreição do Senhor Jesus e comprometem-se a ser vida, corpo dado e sangue derramado numa vida de ação de graças a Deus, ao próximo e a todo o criado. Inaugura-se assim um novo céu e uma nova terra.


A Páscoa de Cristo e dos cristãos

Páscoa é a passagem da morte para a vida por obra de Deus. Na solenidade da Páscoa, que se estende por 50 dias, a Igreja celebra a Páscoa de Cristo e dos cristãos, ou a páscoa dos cristãos na páscoa de Cristo. A compreensão disso é de máxima importância para a vida em Cristo, para toda a dimensão pascal da vida dos cristãos. Por sua morte e ressurreição, Jesus vence o pecado e a morte: aquele que os ímpios fizeram perecer, suspendendo-o ao madeiro, Deus o ressuscitou ao terceiro dia (cf. 1 a leit., At 10,34a.37-43). “Ele nos ordenou que anunciássemos ao povo e atestássemos ser Ele o juiz dos vivos e dos mortos estabelecido por Deus. A Ele todos os profetas dão testemunho de que todo aquele que nele crer receberá, por seu nome, a remissão dos pecados” (At 10,42-43).

Os cristãos já ressuscitaram com Cristo. Já morreram e sua vida está escondida com Cristo em Deus: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com Ele em glória” (cf. 2a leit., Cl 3, 1-4).

Por Cristo morto e ressuscitado os cristãos também já morreram ao pecado e vivem uma vida nova. Isso se manifesta na forma em que eram e podem ser batizados. Mergulhados na água, pela fé e a ação do Espírito Santo, são sepultados na morte redentora de Cristo e, saindo novamente da água, ressuscitam para uma vida nova em Cristo ressuscitado. Esta participação do cristão na morte e ressurreição de Cristo chamamos mistério pascal. Eis a sublimidade da vida cristã: viver permanentemente este mistério pascal, procurando as coisas do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. A celebração da Páscoa anual comemora e assim torna presente a páscoa de Cristo acontecida uma vez na história e a páscoa dos cristãos, que tem seu início na fé em Cristo celebrada no batismo.

Esta páscoa dos cristãos em Cristo morto e ressuscitado torna-se novamente presente e se renova em cada festa da Páscoa. Por isso, ela constitui uma comemoração do batismo, como o Pentecostes é uma comemoração da Crisma. Na festa da Páscoa são lançadas na páscoa de Cristo todos os fatos pascais da vida dos cristãos, incluindo as passagens de situações menos humanas para situações mais humanas, as vitórias contra o mal, o testemunho do Cristo ressuscitado, ações de serviço ao corpo de Cristo, presente nas pessoas humanas. Assim, realiza-se o mistério da Páscoa, fonte e manifestação de vida da humanidade por Cristo morto e ressuscitado.

Frei Alberto Beckhäuser
Teólogo e Liturgista



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