Meditação bíblica

Tríduo Pascal 2020

Quinta-feira Santa, 9 de abril de 2020


“Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz”


Oração: “Ó Pai, estamos reunidos para a santa ceia, na qual o vosso Filho único, ao entregar-se à morte, deu à sua Igreja um novo e eterno sacrifício, como banquete do seu amor. Concedei-nos, por mistério tão excelso, chegar à plenitude da caridade e da vida”.

  1. Primeira leitura: Ex 12,1-8.12-14

Ritual da ceia pascal.

A primeira leitura apresenta uma síntese do ritual da celebração da páscoa judaica. A origem deste ritual vem de um costume entre pastores nômades de sacrificar um cordeiro ou cabrito, por ocasião de uma festa primaveril. Os filhos de Jacó entraram no Egito como pastores (cf. Gn 47,1-6). Centenas de anos depois, fugiram da severa escravidão sofrida no Egito, levando para o deserto seus rebanhos de ovelhas e bois (cf. Ex 10,24-26). Talvez a festa que os hebreus queriam celebrar no deserto tenha origem na antiga festa pastoril (Ex 3,18; 5,1-3). A festa de origem pastoril ganhou um conteúdo histórico, passando a ser o memorial do maior evento da história da salvação, isto é, a libertação de Israel do Egito. A celebração da Páscoa judaica tem um caráter familiar, porque era celebrada nas famílias; ao mesmo tempo tinha um caráter coletivo, porque todas as famílias celebravam o mesmo memorial, na mesma data. Jesus celebrou a páscoa com seus discípulos, antes de ser traído por Judas e preso pela guarda do Templo.

Salmo responsorial: Sl 115

              O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor.

  • Segunda leitura: 1Cor 11,23-26

Todas as vezes que comerdes deste pão

e beberdes deste cálice, proclamais a morte do Senhor.

A instituição da eucaristia é conhecida através de quatro textos, que, basicamente, representam duas tradições: Paulo e Lucas (1Cor 11,23-35; Lc 22,19-20; 2. Marcos e Mateus (Mc 14,22-24: Mt 26,26-29). O texto mais antigo é o de Paulo. Após criticar alguns abusos na celebração da Ceia, que dividiam a comunidade, Paulo reafirma o que antes havia ensinado aos coríntios. O que lhes ensinou não foi invenção sua, mas recebeu-o do Senhor. Embora não tenha conhecido a Jesus histórico, viu como os cristãos de Damasco, Jerusalém e Antioquia celebravam a Ceia do Senhor (Gl 1,11-24; At 9,20-30; 11,24-26; 13,1-3). Lembra que a ceia aconteceu “na noite em que Jesus foi entregue” por Judas. Não foi, porém, uma decisão do traidor que entregou Jesus à morte. Ao contrário, Jesus livremente “entregou-se por nossos pecados… segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (Gl 1,4; Rm 8,32). Ele “sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo ao Pai” (Evangelho). Durante a ceia, Jesus toma o pão em suas mãos, agradece a Deus pelos alimentos recebidos (“frutos da terra e do trabalho humano”: Ofertório), divide o pão e diz: “Isto é o meu corpo que é dado por vós”. No final da ceia, Jesus pega o cálice com vinho e diz: “Este cálice é a nova aliança, em meu sangue”. Duas vezes aparece a ordem: “Fazei isso em minha memória”. Se a antiga aliança do Sinai foi selada com o sangue de touros sacrificados (cf. Ex 24,4-8), a nova aliança é selada no sangue de Cristo, derramado pelos nossos pecados. A livre iniciativa de Deus é marcada pela entrega de seu Filho, pelo seu corpo, que é dado e pelo sangue, que é derramado.

Ao celebrar a Ceia do Senhor proclamamos sua morte e ressurreição, “até que ele venha”. Após a consagração, a assembleia aclama: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”!

Aclamação ao Evangelho

              Glória a vós, ó Cristo, verbo de Deus. Eu vos dou este novo mandamento, nova ordem, agora, vos dou, que, também, vos ameis uns aos outros, como eu vos amei, diz o Senhor.

  • Evangelho: Jo 13,1-15

Amou-os até o fim.

João não conta a instituição da eucaristia na véspera de sua condenação à morte, como o fazem Paulo e os outros evangelhos. Em Jo 6,22-59 é tratado o tema da eucaristia. Aqui, o evangelista fala apenas do que aconteceu e o que Jesus falou durante a ceia de despedida, celebrada antes da festa da páscoa. Mais importante do que a própria ceia são as palavras de Jesus e o gesto de humilde serviço, ao lavar os pés dos discípulos. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés. E Jesus lhe diz: “Se não te lavar os pés, não parte comigo”. A palavra parte significa porção ou participação na herança paterna, como no caso do filho pródigo (Lc 15,12). Estamos no contexto de um testamento que Jesus deixa aos discípulos, como sua última vontade. Este testamento coloca em comunhão os discípulos com o Mestre. Comungar da vida de Jesus tem como consequência lógica o serviço radical. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1). Jesus ensina pela palavra e pelo exemplo: “Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (v. 14-15). Todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. Este é o testamento que Jesus deixa aos discípulos e a todos nós. Jesus sabia que “de Deus tinha saído e a Deus voltava”. Jesus saiu do Amor sublime que é Deus e nos deixou como herança o mandamento do Amor.

Frei Ludovico Garmus, Ofm
Biblista e escritor

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